Os palestinos e o mundo *

Em setembro os palestinos trarão à Assembleia Geral da ONU a proposta para a criação de um estado palestino. Informalmente esta proposta já conta com o apoio da grande maioria dos países da Organização. Vejamos uma breve retrospectiva histórica do povo palestino e do suposto estado palestino. Este jamais existiu nem nos olhos dos irmãos árabes e dos irmãos muçulmanos. A Síria considera a área do norte do Estado de Israel como parte da Grande Síria, que inclui o Líbano também, e o Egito cobiçou o Sul do país. Na Guerra da Independencia, em 1948, aviões egípcios chegaram a bombardear Tel-Aviv (Capital de Israel). A Declaração da Partilha de 29 de novembro de 1947, que foi aprovada na ONU, sob a presidência do brasileiro Osvaldo Aranha, falou da criação de dois estados, um judeu e um árabe. Árabe e não palestino. Israel foi então criada, e a parte árabe foi invadida e conquistada pela Jordânia no leste, e no sudoeste o Egito conquistou para si a Faixa de Gaza. Nos anais da ONU e do mundo não existiu povo palestino até a segunda metade da década de 70 do século XX (basta olhar todas as resoluções da ONU). Quando perguntaram do povo palestino à premier Golda Meir, ela respondeu "Que povo palestino? Não existe um povo palestino.".

Mas atos dos ditos palestinos já começaram a ser conhecidos pelo mundo, pelos seus ataques terroristas. O primeiro ato da Organização da Libertação da Palestina (OLP) foi em 1º de janeiro de 1964 (alguns anos antes da Guerra dos Seis Dias e da história dos territórios ocupados). Também foram os palestinos que introduziram ao mundo o sequestro de aviões, sua explosão (na década de 60) e consequentemente nos levaram a toda esta bagunça nos aeroportos como a conhecemos atualmente. O "mundo" aturava todos estes atos de terror impunes e até financiava a OLP, para que se mantivesse longe. Era um tipo de seguro. Nesses dias foram publicados relatórios secretos do Departamento de Estado americano, que comprovam que foi por ordem explicita de Yasser Arafat a invasão da embaixada saudita em Khartum e o assassinato (vem da palavra árabe haxaxin) do embaixador americano e seu vice, em marco de 1973. Isso não impediu os americanos de cortejar Arafat e dar honras de chefe de estado (?), que recebeu em todo lugar, e até na ONU, onde apareceu na Assembleia Geral, em 1974, como ninguém o fizera antes nem depois, entrando na organização da paz com um revolver a tira-colo.

Se o leitor perguntar por que depois de 63 anos ainda não foi solucionado o problema palestino, a resposta não e tão complicada. Nos países árabes os palestinos são considerados cidadãos de segunda categoria, não recebem cidadania, não podem trabalhar em todas as profissões, além de serem confinados em campos de refugiados para perpetuar o problema. Lembremos apenas da chacina que o rei Hussein da Jordânia promoveu contra os palestinos no "setembro negro" (1970), da expulsão de 300.000 palestinos do Kuwait, em 1991, por Arafat ter apoiado Saddam Hussein, ou da bronca que Arafat levou do presidente egípcio, Mubarak, "assina calb ibn calb" ("cachorro filho de cachorro"), em Camp David, quando no último segundo voltou atrás nos acordos já acertados. Até a ONU ajuda a perpetuar o problema pela criação de uma agência - UNRWA - que só lida com refugiados palestinos, como se não existissem outros refugiados no mundo. Aliás, as centenas de milhares de refugiados judeus, expulsos de países árabes e os que fugiram da Europa pós Holocausto, Israel absorveu e terminou de vez.

Queiramos ou não, hoje há um povo palestino, e ele tem direito ao seu país. Após milhares de atentados terroristas com milhares de mortos feridos, o "mundo" se esquece destes fatos e provavelmente aprovará - em contrário aos acordos com Israel, que proíbem ações unilaterais - a criação de um estado palestino. Mas que estado será este? Do Hamas da Faixa de Gaza, que não reconhece o Estado de Israel e o bombardeia incessantemente? Ou será da Autoridade Palestina, que não consegue nem controlar e se impor aos seus irmãos palestinos do Hamas? Os palestinos fizeram inúmeros atentados e saíram delas impunes. A cada atentado Arafat era mais cortejado. Isso refletiu no mundo islâmico, e o gênio saiu da garrafa em 1973 com o aumento do preço do petróleo e o surgimento dos novos donos do dinheiro. Eles introduziram no mundo o sequestro e explosão de aviões, matanças nunca antes vistas em ataques suicidas em ônibus nas cidades, o horror do atentado às Torres Gêmeas em Nova York, em igrejas, e até mesmo em mesquitas (esta semana em Bagdá mataram 28 e feriram 53 sunitas).

Vários paises patrocinaram as organizações para as manter longe dos seus países, outros fecharam os olhos colaborando pacificamente para ficar "a salvo". Alguns países, como Iraque, Afeganistão e Paquistão, receberam bilhões de dólares, como nenhum outro país. E o que deram em retribuição? Os 4 milhões de palestinos, ao longo dos anos, receberam, principalmente de países do Ocidente, mais do que a Europa toda recebeu através do "Plano Marshal" para sua reconstrução após a II Guerra Mundial. Aonde toda esta fábula foi parar? Infelizmente, quando abrimos o jornal e lemos notícias internacionais, ali estão a Síria, Líbia, Somália, Tunísia, Egito, Turquia, Afeganistão, Paquistão, Irã, Iraque etc., que têm em comum a sua crença, e só relacionados a mortes e destruição. Dos 1,3 bilhão de muçulmanos, não vemos uma só notícia atualmente de conquistas no mundo literário, cientifico, esportista. Nenhum "Prêmio Nobel" ou outro de destaque no mundo. São 1,3 bilhão de pessoas em 64 países. A criação de um estado palestino recebe apoio mundial (também por medo de represálias), apesar de os palestinos se recusarem a reconhecer e a dialogar com um país com que terão de lidar a vida toda: seu vizinho Israel. Como disse há anos o chanceler israelense Abba Eban, "os palestinos não perderam nenhuma oportunidade de perder oportunidade".


* Autor: David S. Moran. Publicado no Jornal Alef, em 31.08.2011