Teoria Global da Aprendizagem

O ser humano diferencia-se dos outros animais por uma característica fundamental: ser ao mesmo tempo individual e coletivo. Enquanto cada espécie tem uma ou outra característica dominante, o homem é guiado exatamente pelo conflito entre seu instinto coletivo e o individual, que são antagônicos entre si.

Espécies como abelhas e formigas, por exemplo, são essencialmente coletivistas, nas quais o indivíduo só existe em função do grupo. Já as serpentes e a maioria dos répteis são totalmente individuais, pois já nascem “preparados” para sobreviver sozinhos, sem qualquer relação social – sequer familiar – entre outros membros da mesma espécie. O ser humano, por sua vez, não vive (enquanto ser humano) senão em sociedade, e em qualquer grupo no qual esteja inserido mantém a sua individualidade (interesses, necessidades etc.).

Esta CARACTERÍSTICA FUNDAMENTAL do ser humano é a base para todas as teorias sociais, econômicas, psicológicas e, também, pedagógicas. Todas elas tentam, de uma forma ou de outra, conscientemente ou não, solucionar o conflito que está na essência da nossa espécie, buscando um equilíbrio entre o ser coletivo e o ser individual.

Quanto mais autoritária a sociedade, mais valor se dá ao caráter coletivo. Ao contrário, quanto mais liberal – ou libertária – mais se valoriza o indivíduo.

Nas sociedades coletivistas, autoritárias, busca-se permanentemente encaixar as pessoas nos padrões definidos pelas estruturas de poder, em todos os aspectos da vida humana. São ditadas normas de comportamento, formas de estrutura familiar, direitos e deveres bem definidos (quase sempre mais deveres do que direitos). Toda diferença é marginalizada e castrada.

Quanto mais liberal a sociedade, mais valor se dá ao indivíduo. Há mais direitos de propriedade, estímulo ao empreendedorismo, menor controle social sobre o comportamento e, no oposto, maior transparência e controle sobre as estruturas de poder.

Sweddseee (← isso foi o gato que subiu no computador e deixou sua contribuição ao texto!)

Na educação isso não é diferente. E as teorias da aprendizagem também seguem a evolução humana - cada vez menos coletiva e mais em busca do equilíbrio, sempre visando solucionar nosso conflito essencial.

Nas teorias mais conservadoras, tradicionais, comportamentalistas (behaviorismo, por exemplo) típicas de uma época em que a sociedade era mais autoritária, quando cada um tinha “seu lugar definido” na estrutura social, a educação tem como objetivo principal formar cidadãos adaptados ao modelo social vigente. Por isso se valoriza mais a transmissão do conhecimento, com programas de ensino pré-estabelecidos. O foco está na “função social” da escola.

Não é à toa que no momento em que a humanidade passa por uma transformação profunda, com o fim da Guerra Fria (fim de modelos sociais planejados) e a “vitória do capitalismo sobre o socialismo/comunismo”, com ênfase maior no indivíduo, busca-se cada vez mais um ensino voltado às necessidades desta nova era. Valoriza-se principalmente a criatividade e o empreendedorismo. O aluno não é mais visto como alguém a ser modelado para se adaptar ao sistema, mas sim como o objetivo central do ensino, construindo o seu próprio saber. E o professor deixa aos poucos de ser a autoridade representante da estrutura de poder que está para “dirigir” a aprendizagem e repassar o conhecimento, tornando-se um auxiliar do processo de aprendizagem.

Podemos citar como exemplos dessa diferença de visão a escola tradicional e os cursos técnicos (como de idiomas).

Numa escola tradicional, mesmo na mais moderna, há dois objetivos centrais: o desenvolvimento intelectual do aluno e a sua adaptação à estrutura social vigente. Por isso é possível encontrarmos diversas teorias de aprendizagem. Mas basicamente o aluno é avaliado pelo professor conforme vai demonstrando “respostas corretas” aos estímulos dados. O foco está na aprendizagem que vem de fora.

Já num curso particular de inglês, por exemplo, em que é o aluno que define seu objetivo (e paga para isso), é ele quem avalia permanentemente o progresso da aprendizagem. Aí o foco é claramente no próprio aluno. E a escola busca aplicar métodos de ensino que sejam mais atrativos (até para manter o cliente).


Qual o “melhor método” de ensino / teoria da aprendizagem?

Muitos educadores caem numa falsa dicotomia ao interpretar as teorias da aprendizagem: o conhecimento seria interno ou externo? As diferentes teorias priorizam um ou outro, mas o fato é que o conhecimento surge das duas formas. E não há um “método certo” ou “errado” de ensino, mas sim aquele – ou aqueles – que esteja(m) ou não em sintonia com determinado objetivo educacional.

Escolas que têm como meta a adaptação do aluno de forma mais eficiente ao sistema social vigente tendem a priorizar teorias baseadas na transmissão do conhecimento, na característica social do homem. Escolas que buscam o incentivo ao empreendedorismo e à criatividade tendem a priorizar teorias baseadas na construção do conhecimento a partir do próprio indivíduo. Contudo nenhuma se baseia em apenas uma ou outra forma, pois o ser humano não é apenas social ou apenas individual, mas sim é movido pelo conflito entre estas duas características. E a escola tem como função a formação integral da pessoa, tanto no seu desenvolvimento intelectual quanto na responsabilidade social com a comunidade - e o mundo - mundo em que vive.

A escolha do “método” (ou dos métodos) de ensino, por conseguinte, deve ser feita de acordo com o objetivo proposto, com cada situação e cada caso específico. E o conhecimento das diversas teorias é primordial. Mas talvez a própria conjugação dos diversos métodos e teorias (inclusive com visões antagônicas) seja uma nova teoria – uma Teoria Global – que esteja mais em sintonia com as necessidades educacionais da realidade atual e do novo ser humano, num mundo de avanço científico-tecnológico em que a própria informação é transmitida cada vez mais rapidamente e de forma horizontal.


Um pouco de filosofia (bem pouquinho mesmo!):

Desde os primórdios, o homem buscou encontrar a “Pedra Filosofal” – a fonte de todo saber, que iria resolver os problemas da humanidade. Quem sabe não seja ela a solução desse dilema?

O fato é que todos os pensadores tangenciaram, de uma forma ou de outra, a “dicotomia existencial” do ser humano.

Karl Marx, por exemplo, desenvolveu sua teoria baseado nas diferenças sociais, opondo grupos distintos (luta de classes: classe operária x burguesia). Mas o próprio marxismo entende o homem como produto do meio. Marx apontava os conflitos sociais como fonte dos problemas da humanidade, pois não identificou que estes conflitos são originados internamente, a partir da própria característica fundamental da espécie humana.

Sigmund Freud baseou seus estudos nas relações entre o indivíduo e o meio e seus efeitos na psique. Identificou que a pessoa tem seu desenvolvimento a partir de fases (oral, anal, fálica, período de latência e idade adulta) que se caracterizam fundamentalmente por essa relação, sem apontá-la claramente. Suas teorias se baseiam nas relações (consequências), enquanto a causa está no instinto básico (característica fundamental) da nossa espécie.


Um pouco de história:

Durante muito tempo a humanidade, nas diferentes sociedades, tinha mais claramente definido o papel do indivíduo, com regras sociais baseadas numa religião, numa moral e numa ética. Havia estamentos, em que cada grupo exercia uma função bem definida. O coletivo era o mais importante. Mas com a Revolução Francesa, cada vez mais o indivíduo ganhou papel central.

Após a Revolução industrial, o antagonismo social se acentuou. E a partir de 1917 (Revolução Socialista na URSS), o mundo se dividiu claramente entre dois sistemas em que cada um tinha uma característica fundamental como centro da organização social.

Com o desmantelamento da URSS e o fim da guerra fria – a “vitória do capitalismo sobre o socialismo/comunismo” – houve (e ainda há) uma profunda e progressiva acentuação do individualismo e a falência de estruturas sociais baseadas no coletivo (religiões, família tradicional, sistemas econômicos e regimes políticos autoritários, etc.).

Se haverá uma longa era de sobreposição do indivíduo sobre o coletivo, se a “balança” vai se inverter novamente ou se a humanidade encontrará um equilíbrio (se é que existe) é difícil prever.